Monotrilho: demolição já!

Álvaro Ely Monteiro Vilela

Em 1982, quando surgiu a ideia de se implantar em Poços de Caldas um transporte de massa por via elevada, com cerca de 30 km de extensão, tentei demover os seus idealizadores e as autoridades municipais da sua viabilidade econômica. Não se faz uma obra desse porte e com esse propósito numa cidade com menos de um milhão de habitantes, em lugar nenhum do mundo.

Nunca questionei a capacidade técnica ou financeira dos seus idealizadores, mas argumentava na ocasião que não haveria como remunerar, apenas com o custo das tarifas, investimento de tal porte. Minha preocupação era o grande dano paisagístico que um empreendimento como esse poderia trazer àcidade.

Como alternativa, cheguei mesmo a sugerir que a sua implantação fosse feita por etapas, preservando o centro da cidade para só quando o monotrilho estivesse em funcionamento, ainda que experimental. Todos os apelos foram ignorados. À época, a população estava extasiada com a ideia de ganhar o primeiro monotrilho do Brasil, que traria grandes vantagens, num percurso que atingiria a zona sul, retornando ao centro da cidade passando pela zona leste, tudo isso em carros ultramodernos, com ar condicionado, e pagando uma tarifa inferior à dos ônibus urbanos.

Não havia como contestar tão fortes argumentos. A realidade, no entanto, se impôs aos poucos. O sistema de tração, que originalmente era com motores elétricos e silenciosos, foi substituído por motores a diesel. Por um problema nunca identificado, os pneus começaram a desgastar-se exageradamente, obrigando os seus idealizadores a fazer mais uma alteração radical no projeto, e foram implantados trilhos de aço sobre as vigas de concreto, nos quais correria o agora não mais monotrilho, pois deveria correr sobre dois  trilhos, tal qual um trem comum.

Essa alternativa também não teve sucesso, pois sendo uma via de bitola exageradamente estreita, exigia do maquinista condução em velocidade muito lenta, até que um dia, ainda na fase experimental, o veículo lotado descarrilhou, deixando presos os seus passageiros sob sol causticante, aguardando ansiosamente que o corpo de bombeiros chegasse para resgatá-los. Depois disso, o sistema nunca mais funcionou. A estrutura ficou abandonada até dezembro do ano passado, quando um dos pilares na avenida João Pinheiro cedeu cerca de 30 cm, submetido apenas ao peso próprio da viga que deveria suportar.

Esse fato alertou para uma realidade de risco iminente no restante da estrutura, uma vez que toda ela foi executada da mesma forma, e como cedeu em um ponto, fica evidente que poderá ceder em toda a extensão da via. Aparentemente, o sistema estrutural é isostático, o que equivale dizer que qualquer dano a um dos apoios poderá levar aquele vão à ruina. Considero importante o acordo celebrado entre a concessionária e a prefeitura, uma vez que todos os prefeitos até agora foram impedidos de intervir.

Na minha opinião, o poder público municipal não deve investir na tentativa de recuperar aquela estrutura, mas deve providenciar a sua demolição com a maior urgência possível. Sugiro que se comece pelos vãos que oferecem maior risco, como os cruzamentos sobre as vias de circulação.

Para preservar as árvores que foram plantadas na avenida João Pinheiro, sugiro que as vigas sejam escoradas em cada vão e demolidas com marteletes. Os pilares, ou apenas alguns deles, poderiam ser preservados como suporte de trepadeiras.

Alvaro Ely Monteiro Vilela é engenheiro civil

(publicado no Jornal da Mantiqueira, edição 01/02/19)

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